quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poema para Galileu

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão (1964)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dia Nacional da Cultura Científica


A 24 de Novembro de 1997, para comemorar o nascimento de Rómulo de Carvalho e divulgar o seu trabalho na promoção da cultura científica e no ensino da ciência, foi instítuido o Dia Nacional da Cultura Científica.
Em homenagem a Rómulo de Carvalho, professor de Física e Química, que escrevia sob o pseudónimo de António Gedeão, aqui fica um dos seus poemas:

Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Rómulo de Carvalho/António Gedeão

domingo, 14 de novembro de 2010

Na época das Castanhas



Estamos na época das castanhas e dos magustos!

O dia de S. Martinho é geralmente festejado em todo o país com as primeiras castanhas do ano e vinho novo.
São deliciosas as castanhas, assadas ou cozidas, mas antes de serem cozinhadas têm de ser cortadas ou retalhadas.

Porque será?
Claro que é para não rebentarem. Mas porque é que as castanhas rebentam ao serem cozinhadas?

As castanhas contêm bastante água na sua composição. Cerca de metade do peso de uma castanha corresponde a água. Assim, quando são aquecidas, essa água passa ao estado de vapor. A pressão do vapor vai aumentando e exercendo uma pressão sobre a casca, que a vai “empurrando” e se esta não tiver levado um golpe para deixar escapar esse vapor, a castanha pode explodir e a castanha fica desfeita em vários pedaços.
É surpreendente como muitos dos fenómenos físicos e químicos que estudamos no Laboratório se apliquem afinal à Cozinha!

E atenção, quando assar castanhas, não se esqueça de as cortar!
Bom magusto de S. Martinho!

sábado, 13 de novembro de 2010

História da Tabela Periódica

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Ainda a propósito da Tabela Periódica ...


O elemento 117 do quadro de Mendeleev

Investigadores russos e norte-americanos desenvolveram um novo elemento químico – o elemento de número atómico 117, que permitirá uma série de novas descobertas. A representação da novidade no quadro de Mendeleev (tabela periódica) vem ocupar o espaço em branco na sétima fila, junto dos elementos ‘pesados’, aqueles com massa atómica elevada. Após as recentes descobertas dos 113, 114, 115, 116 e 118, o 117 permanecia ausente.

Referências Bibliográficas:

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um ponto de partida para o estudo da Tabela Periódica ...

A Química estuda as propriedades de todas as substâncias que entram na constituição da enorme diversidade de materiais existentes na Terra.

Essas substâncias são, por sua vez, formadas por elementos químicos. Cada tipo de átomos corresponde a um elemento químico diferente. Actualmente, conhecem-se mais de uma centena de elementos químicos diferentes. Não são muitos, mas como os átomos do mesmo elemento, ou de elementos químicos diferentes, se podem ligar das mais diversas formas, e em número variado, é possível formar com eles um grande número de substâncias diferentes.

Embora alguns elementos químicos, como o ouro, o ferro, a prata e o cobre, sejam conhecidos desde a Antiguidade, até ao princípio do século XIX apenas se tinham descoberto cerca de 30 elementos químicos diferentes.Contudo, em meados do mesmo século, o seu número já tinha duplicado.


À medida que novos elementos químicos foram sendo descobertos, os cientistas constatavam a existência de certas semelhanças nas propriedades de alguns deles. Surgiu assim, a necessidade de se organizarem os elementos químicos conhecidos de acordo com as suas propriedades.


A organização dos elementos levou à construção da Tabela Periódica, que é hoje, sem dúvida, uma ferramenta de trabalho fundamental na Química. Nela encontramos os elementos dispostos de acordo com as suas propriedades, por ordem crescente do seu número atómico.

A Tabela Periódica desempenha um papel fundamental ao ajudar-nos a compreender as propriedades das diversas substâncias elementares e compostas.
A actual Tabela Periódica teve a sua origem com Dimitri Mendeleiev em 1869, que organizou os cerca de 60 elementos, até então conhecidos, em linhas e colunas, segundo a ordem crescente das suas massas atómicas.


Com o avançar dos anos, foram descobertos novos elementos químicos, que de facto, vieram a ocupar espaços “vazios” que tinham sido deixados por Mendeleiev.


A Tabela Periódica actual tem como base a tabela concebida por Mendeleiev. Contudo, muitos foram os contributos de diversos cientistas na evolução histórica desta Tabela.

A História das Ciências mostra-nos que o conhecimento científico está em permanente evolução sendo, por isso, um conhecimento inacabado. A construção da Tabela Periódica é um bom exemplo de como simultaneamente, e à medida que se vai aprofundando o estudo sobre a organização dos elementos químicos, se pode construir a ideia de que o conhecimento científico está em permanente evolução, integrando sempre contributos de vários cientistas, como se pode constatar através da sequência dos trabalhos e propostas de organização periódica de diversos cientistas, desde Lavoisier a Mendeleiev.

Imagens retiradas de:

Cridle, C.; Gonick, L. (2006). A Química em Banda Desenhada. Lisboa: Gradiva Publicações.